O mundo adulto se descontrola, e os mais novos é que pagam o pato. Um bom exemplo é a questão financeira. Ao consultar diferentes pesquisas feitas com o objetivo de avaliar a saúde financeira dos brasileiros, constatamos que as famílias estão cada vez mais endividadas. E por que é que os adultos gastam tanto atualmente? Porque vivemos na era do consumo: precisamos consumir para garantir visibilidade no mundo. O fato é que nos entregamos louca e desesperadamente ao consumo: porque “merecemos”, porque desenvolvemos ganância, porque dá para parcelar, porque é só dar um “click”, porque dá status, etc. Consumir tem sido um imperativo em nossas vidas.

 

O problema é que, quando chegam a fatura do cartão de crédito e as contas a pagar, percebemos que o ganho mensal não dá para quitar tudo. Aí, parcelamos mais e a espiral de endividamento só cresce. Um gasto importante para famílias que têm filhos em idade escolar é justamente a mensalidade do colégio (e despesas paralelas, como transporte, uniforme, material e passeios). E tudo isso sai bem caro. Como ter filho em escola privada, de preferência que tenha boa avaliação e seja disputada, também é um consumo importante, lá vão as famílias para mais esse gasto. Mas nem sempre dá para bancar tudo. Muitas escolas precisam passar pela situação de constatar que pais inadimplentes chegam com o filho em carros caros e novos e fazem viagens ao exterior –a Disney é o destino preferido– nas férias.

E tem sido justamente a escola a instituição que vem sendo responsabilizada por mais uma função – como se ela já não tivesse o suficiente: a de dar aulas de educação financeira a seus alunos. O que vem a ser “educação financeira”, afinal? É a disciplina que tem por objetivo ensinar a administrar de modo saudável –controlado– a renda mensal pessoal e familiar, e a buscar garantir a segurança financeira possível para o futuro a curto, médio e longo prazo. Em resumo: procura formar consumidores mais conscientes e críticos. O que os mais novos têm a ver com isso? Pouco, quase nada, porque quem tem renda e controla os gastos –ou se descontrola com eles– são os pais. Então, só dá para ensinar aos mais novos duas coisas importantes nessa questão: a administrar bem a mesada e a ser crítico em relação aos inúmeros apelos de consumo a que estão submetidos.

Não é boa a lição de comprar o que o filho pede quando ele usa o argumento de que todos os colegas têm: isso é ensinar a não ser crítico. Vale muito mais questionar se ele realmente precisa daquilo e, principalmente, ajudá-lo a encontrar outros caminhos para estar no grupo – como valorizar os recursos pessoais dele, por exemplo. Dar a mesada, estipular quais os gastos que ele fará com seu dinheiro e acompanhar o seu uso, sem censurá-lo, são estratégias valiosas.

Se ele usar a mesada para comprar um lanche na escola e esgotar todo o seu recurso antes de terminar a semana, por exemplo, os pais não devem repor a quantia. Uns dias sem lanche da cantina não matam a criança de fome.

O importante é saber que, nessa questão, as principais lições são aprendidas pelos mais novos quando observam a postura dos pais diante do consumo.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de “Como Educar Meu Filho?” (Publifolha)

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